sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

meio.

Hoje vi-te ao longe. Tão longe quanto a minha memória alcança. Nem demasiado longe ou perto. Estás à distância perfeita da minha dor, não fosse eu a vítima das tuas palavras e das minhas. Como sempre, lamento-me por te ter estupidamente longe, já não sei descrever-te sem recorrer à imaginação, creio teres um brilho maior quando falo de ti. Escrevo-te à imagem da luz, da não inquietação e do que quero que sejas. Ficas tão bem no quadro que pinto que vou pendura-lo sem preço ou assinatura. Aparentemente estás bem, continuas com todo o amor do mundo para quem o queira receber e é isso que me rasga o corpo. És a minha utopia e liberdade sonhada, tudo ao mesmo tempo. A energia que me faz querer conquistar a casa. Tenho saudades de falar de ti, detalhar cada pormenor teu a meus olhos, até conquistar o mundo para ti. Dá-me o escudo e a espada que eu vou, por ti e por mim para lado nenhum. Exibirei o teu troféu e vou deixar-me na tua prateleira, junto aos outros.


Sempre gostaste de exibir as tuas vitórias, aqui me entrego então, não tenho roupa, isto porque sempre me pediste a entrega integral. Nunca soube qual seria a tua lição de moral ao final do dia. Nunca me explicaste nada, odeio que fiques pelas meias palavras, pelo meio amor e pelo meio querer. Metes-me meio nojo. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

vera palos, membro honorário da geração beat: cigarros e cerveja.

ácida e trágica – mais trágica que ácida -, a vera palos inaugurou este blog. dela podemos esperar aquilo que sempre trouxe naquilo que escreve: um drama-queenismo sem fim, próprio de quem vê o mundo a partir de uma braga fria e chuvosa. são muitos os textos que a chuva inspira, tantos os versos que caíram com o frio. há um toque de geração beat em tudo o que é escrito ao frio – ou então sou eu que não consigo deixar de imaginar o ginsberg embriagado ali ao lado do hudson. também há um toque de allen ginsberg em quem escreve sobre cigarros – ou então sou eu que não consigo deixar de imaginá-lo de óculos a fumar e a ouvir jazz. há-de haver ainda um bukowski no drama-queenismo sem fim da vera palos, ainda que ele, como ela, nunca se tenha associado aos representantes beats. olhemos para ele com humor. para ele, que é o reflexo do ácido e do trágico, irmão do ginsberg e do kerouac. olhemos com humor para o drama-queenismo do tabaco e da cerveja, para um membro honorário de uma literatura com vícios. e larguemos os casacos: eles virão à chegada do amor.

ácido e trágico

matei-te há tanto tempo e ainda estás viva
deixei-te a agonizar quando amanhece
para que não mais pudesse vir a noite

acenaste-me adeus e não partiste
voltaste a respirar nas manhãs todas
e eu a noite inteira no terror
de saber que não estarás de madrugada

ácido e trágico.

Início de tarde, uma pequena brisa corta o calor que me faz suar pelo corpo todo, tenho a camisola colada às costas e à cadeira, enquanto me faço acompanhar de uma pequena garrafa de água, já vazia, penso.
Começou a chover há pouco mais de dez minutos, rio-me das pessoas que não esperavam este pequeno dilúvio, que parece haver expulsado o sol para sempre, também de quem, como eu, calçou os melhores chinelos que criaram para usar em dias de chuva. Trágico.

O meu relógio funciona perfeitamente e aclara-me de que há doze horas recebi uma carta tua, faz tempo que não me escreves. Que tens tu para me dizer agora, meu amor? Partiram-te o coração? Rasgaram-te de tal forma a pele que perdeste o teu escudo? Possivelmente perguntas que tal estou. Fui eu que deixei de escrever, na verdade. Os teus dias eram-me corrosivos e as tuas palavras sugavam-me qualquer tipo de sentimento, o tom da caneta enervava-me seriamente e o facto de não escreves direito nas linhas deixava-me fora de mim. Se tens as linhas é suposto escreveres de acordo com elas, sempre achei que tinhas problemas com o que te impunham, até com a merda de uma folha onde depositavas todas as tuas grandes aventuras e rotinas nojentas sem mim. Ou então tens alguma grande novidade que eu ‘adoraria saber’. Ácido.

Abrirei a carta amanhã, certamente. Até lá estarei a decifrar-te, depois de tantos meses.
Vou chegar a casa e olhar de novo para o envelope e juntar o selo aos outros. És uma caixinha pousada ao lado das chaves de casa.
Passaram mais quinze minutos certos, vou embora daqui, o cigarro acabou e a chuva molhou-me a bolsa nova que comprei e, claro, os pés. Reencontrar-nos-emos, espero que tenhas mudado essa caneta horrível.


Até amanhã.