quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ácido e trágico.

Início de tarde, uma pequena brisa corta o calor que me faz suar pelo corpo todo, tenho a camisola colada às costas e à cadeira, enquanto me faço acompanhar de uma pequena garrafa de água, já vazia, penso.
Começou a chover há pouco mais de dez minutos, rio-me das pessoas que não esperavam este pequeno dilúvio, que parece haver expulsado o sol para sempre, também de quem, como eu, calçou os melhores chinelos que criaram para usar em dias de chuva. Trágico.

O meu relógio funciona perfeitamente e aclara-me de que há doze horas recebi uma carta tua, faz tempo que não me escreves. Que tens tu para me dizer agora, meu amor? Partiram-te o coração? Rasgaram-te de tal forma a pele que perdeste o teu escudo? Possivelmente perguntas que tal estou. Fui eu que deixei de escrever, na verdade. Os teus dias eram-me corrosivos e as tuas palavras sugavam-me qualquer tipo de sentimento, o tom da caneta enervava-me seriamente e o facto de não escreves direito nas linhas deixava-me fora de mim. Se tens as linhas é suposto escreveres de acordo com elas, sempre achei que tinhas problemas com o que te impunham, até com a merda de uma folha onde depositavas todas as tuas grandes aventuras e rotinas nojentas sem mim. Ou então tens alguma grande novidade que eu ‘adoraria saber’. Ácido.

Abrirei a carta amanhã, certamente. Até lá estarei a decifrar-te, depois de tantos meses.
Vou chegar a casa e olhar de novo para o envelope e juntar o selo aos outros. És uma caixinha pousada ao lado das chaves de casa.
Passaram mais quinze minutos certos, vou embora daqui, o cigarro acabou e a chuva molhou-me a bolsa nova que comprei e, claro, os pés. Reencontrar-nos-emos, espero que tenhas mudado essa caneta horrível.


Até amanhã.

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