Início de tarde, uma pequena
brisa corta o calor que me faz suar pelo corpo todo, tenho a camisola colada às
costas e à cadeira, enquanto me faço acompanhar de uma pequena garrafa de água,
já vazia, penso.
Começou a chover há pouco mais de
dez minutos, rio-me das pessoas que não esperavam este pequeno dilúvio, que
parece haver expulsado o sol para sempre, também de quem, como eu, calçou os
melhores chinelos que criaram para usar em dias de chuva. Trágico.
O meu relógio funciona
perfeitamente e aclara-me de que há doze horas recebi uma carta tua, faz tempo
que não me escreves. Que tens tu para me
dizer agora, meu amor? Partiram-te o coração? Rasgaram-te de tal forma a pele
que perdeste o teu escudo? Possivelmente perguntas que tal estou. Fui eu
que deixei de escrever, na verdade. Os teus dias eram-me corrosivos e as tuas
palavras sugavam-me qualquer tipo de sentimento, o tom da caneta enervava-me
seriamente e o facto de não escreves direito nas linhas deixava-me fora de mim.
Se tens as linhas é suposto escreveres de acordo com elas, sempre achei que
tinhas problemas com o que te impunham, até com a merda de uma folha onde
depositavas todas as tuas grandes aventuras e rotinas nojentas sem mim. Ou
então tens alguma grande novidade que eu ‘adoraria saber’. Ácido.
Abrirei a carta amanhã,
certamente. Até lá estarei a decifrar-te, depois de tantos meses.
Vou chegar a casa e olhar de novo
para o envelope e juntar o selo aos outros. És uma caixinha pousada ao lado das
chaves de casa.
Passaram mais quinze minutos
certos, vou embora daqui, o cigarro acabou e a chuva molhou-me a bolsa nova que
comprei e, claro, os pés. Reencontrar-nos-emos, espero que tenhas mudado essa
caneta horrível.
Até amanhã.
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