ácida e trágica – mais trágica que ácida -, a vera palos inaugurou este blog. dela podemos esperar aquilo que sempre trouxe naquilo que escreve: um drama-queenismo sem fim, próprio de quem vê o mundo a partir de uma braga fria e chuvosa. são muitos os textos que a chuva inspira, tantos os versos que caíram com o frio. há um toque de geração beat em tudo o que é escrito ao frio – ou então sou eu que não consigo deixar de imaginar o ginsberg embriagado ali ao lado do hudson. também há um toque de allen ginsberg em quem escreve sobre cigarros – ou então sou eu que não consigo deixar de imaginá-lo de óculos a fumar e a ouvir jazz. há-de haver ainda um bukowski no drama-queenismo sem fim da vera palos, ainda que ele, como ela, nunca se tenha associado aos representantes beats. olhemos para ele com humor. para ele, que é o reflexo do ácido e do trágico, irmão do ginsberg e do kerouac. olhemos com humor para o drama-queenismo do tabaco e da cerveja, para um membro honorário de uma literatura com vícios. e larguemos os casacos: eles virão à chegada do amor.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
ácido e trágico
matei-te há tanto tempo e ainda
estás viva
deixei-te a agonizar quando amanhece
para que não mais pudesse vir a
noite
acenaste-me adeus e não partiste
voltaste a respirar nas manhãs
todas
e eu a noite inteira no terror
de saber que não estarás de
madrugada
ácido e trágico.
Início de tarde, uma pequena
brisa corta o calor que me faz suar pelo corpo todo, tenho a camisola colada às
costas e à cadeira, enquanto me faço acompanhar de uma pequena garrafa de água,
já vazia, penso.
Começou a chover há pouco mais de
dez minutos, rio-me das pessoas que não esperavam este pequeno dilúvio, que
parece haver expulsado o sol para sempre, também de quem, como eu, calçou os
melhores chinelos que criaram para usar em dias de chuva. Trágico.
O meu relógio funciona
perfeitamente e aclara-me de que há doze horas recebi uma carta tua, faz tempo
que não me escreves. Que tens tu para me
dizer agora, meu amor? Partiram-te o coração? Rasgaram-te de tal forma a pele
que perdeste o teu escudo? Possivelmente perguntas que tal estou. Fui eu
que deixei de escrever, na verdade. Os teus dias eram-me corrosivos e as tuas
palavras sugavam-me qualquer tipo de sentimento, o tom da caneta enervava-me
seriamente e o facto de não escreves direito nas linhas deixava-me fora de mim.
Se tens as linhas é suposto escreveres de acordo com elas, sempre achei que
tinhas problemas com o que te impunham, até com a merda de uma folha onde
depositavas todas as tuas grandes aventuras e rotinas nojentas sem mim. Ou
então tens alguma grande novidade que eu ‘adoraria saber’. Ácido.
Abrirei a carta amanhã,
certamente. Até lá estarei a decifrar-te, depois de tantos meses.
Vou chegar a casa e olhar de novo
para o envelope e juntar o selo aos outros. És uma caixinha pousada ao lado das
chaves de casa.
Passaram mais quinze minutos
certos, vou embora daqui, o cigarro acabou e a chuva molhou-me a bolsa nova que
comprei e, claro, os pés. Reencontrar-nos-emos, espero que tenhas mudado essa
caneta horrível.
Até amanhã.
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